Eram estranhos — às orações, aos rituais e aos textos sagrados uns dos outros. Um arcebispo católico. Um representante do Candomblé. Um adventista do sétimo dia. Um espírita. Um presidente de estaca da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. No dia 12 de abril de 2026, todos estavam sob o mesmo teto em Feira de Santana, na Bahia, e cantaram.
Não o mesmo hino. Algo mais difícil do que isso. A mesma convicção.
O 1º Simpósio sobre Liberdade Religiosa, realizado na Capela Kalilandia e organizado pela Capitulo Brasil Feira de Santana da Sociedade de Direito J. Reuben Clark em parceria com A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, reuniu mais de 400 participantes em uma cidade nem sempre associada à harmonia inter-religiosa. Cinco tradições religiosas dividiram o palco. Três estacas mobilizaram suas comunidades. Uma pergunta ancorou todo o dia: o que significa ser verdadeiramente livre para crer?
A resposta que mais perdurou veio de uma voz inesperada para um evento ligado à JRCLS. Dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo metropolitano de Feira de Santana, descreveu a liberdade religiosa como o oxigênio de todos os demais direitos humanos — argumentando que, sem ela, todos os outros direitos acabam por sufocar. A fé, disse ele, não pode ser imposta. No momento em que o é, deixa de ser fé.
Eduardo Galdino, representante da tradição afro-brasileira do Candomblé, apontou a geração que está crescendo agora como aquela que determinará se a discriminação se tornará uma relíquia do passado. Anderson Coelho, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, foi direto: a história mostra que sociedades que restringem a liberdade religiosa não param por aí. A perseguição vem a seguir. O respeito pela consciência alheia, disse ele, não é opcional — é o alicerce de uma sociedade pacífica.
A Dra. Mariane Oliveira, representando a Comissão de Igualdade Racial da OAB, acrescentou uma dimensão que diferenciou este simpósio de outros do mesmo gênero: o racismo religioso. No Brasil, onde as religiões afro-brasileiras enfrentaram séculos de marginalização, a conversa sobre liberdade religiosa não pode ser separada da conversa sobre igualdade racial. O direito e a justiça, ela argumentou, precisam proteger ambas.
A manhã começou com crianças. O Coral Infantil da Estaca de Kalilândia recitou os Artigos de Fé antes de cantar, preenchendo o salão com as vozes da próxima geração — antes que qualquer argumento jurídico ou reflexão teológica fosse apresentado. Quando o evento se encerrou — com 400 pessoas de mãos dadas cantando "A Paz" juntas — o salão havia se tornado algo difícil de descrever em uma programação oficial.
A Dra. Christiana Feitosa, advogada, professora e Presidente do Capítulo de Feira de Santana da JRCLS, conduziu o dia. Sob sua mediação, o evento transcorreu não como uma sequência de discursos, mas como uma conversa com algo verdadeiramente em jogo — a dignidade, a convivência e o tipo de sociedade que a Bahia quer ser.
O simpósio recebeu cobertura do Acorda Cidade, o principal portal de notícias de Feira de Santana, que publicou tanto um anúncio prévio quanto uma reportagem sobre a fala de Dom Zanoni no dia seguinte. A Subseção da OAB Feira de Santana também registrou publicamente sua participação, descrevendo o encontro como um notável momento de engajamento coletivo.
O que tornou o dia 12 de abril diferente de qualquer outro domingo em Feira de Santana? Cinco tradições. Quatrocentas pessoas. Um salão. E, por algumas horas, nenhuma voz levantada contra a outra.